Poemas para se ler ao meio-dia

de Augusto de Guimaraens Cavalcanti

Editora 7Letras. Rio de Janeiro, 2006

Cinco poemas do livro
em formato PDF



Augusto de Guimaraens Cavalcanti é um jovem poeta que carrega uma grande responsabilidade. Trata-se do mais novo representante de uma dinastia literária de fazer inveja: Alphonsus de Guimaraens, João Alphonsus, Bernardo Guimaraens, Alphonsus Guimaraens Filho e Afonso Henriques Neto. Como se resolve, na prática, um tal encargo para um poeta de pouco mais de 20 anos que resolve, determinado, entrar nessa perigosa seara familiar? Imagino que, apostar (e arriscar) na vocação de poeta hoje em dia não deva ser aposta das mais simples. Com todas as transformações e nuances que este novo século XXI nos traz, incluindo-se aí o excesso de informação, imagens disponíveis e o universo virtual experimentado cotidianamente na internet, a poesia certamente negocia seu lugar e ainda procura sua expressão mais contemporânea. Portanto, nosso poeta entra em cena já com dois problemas. O peso de uma tradição familiar da alta estirpe e as turbulências paradigmáticas do novo milênio.

Lendo Augusto, entretanto, este esforço parece ser quase nenhum. Tendo, aparentemente, que optar entre dois mundos, Augusto fica tranqüilamente com os dois. Sem abrir mão das experiências de linguagem e de um amplo conhecimento da literatura em seu sentido maior, Augusto começa um longo exercício tendo a coragem e a lisura de não esconder e mesmo, muitas vezes, explicitar suas influências familiares. Entretanto, toma a sábia precaução de seguir atentamente o caminho do “make it new”, poética pregada por Ezra Pound. Em Eclipse, por exemplo, vemos com clareza como o sentimento da atualidade sobrevive e se expressa na tradição de imagens de alta voltagem metafórica: “Hoje ser feliz dentro dos engarrafamentos / Maestro dos corredores noturnos, / Maestro de controle remoto para que mundo?” Ou, ainda em versos quase limítrofes com a linguagem do cotidiano dos anos 70 como Sombra: “Uma tempestade de mulheres feias./ Cuidado veneno./ Sorrisos gordurosos, beijos engordurados. Outras ruínas / Danço com mulheres e estátuas” É mais ou menos assim que Augusto percorre seus primeiros ensaios na seara da poesia. Em Vídeo-game, preocupa-se como seria, hoje, o tom e a pertinência da prática poética: “afinal que delicada poesia é essa que evapora fácil e ainda assim é poesia, mais real do que o real?” Augusto parece estar em pleno rito de passagem entre a seriedade e a gravidade do fazer poético para a vivência da poesia como algo visceral no seu dia a dia. É o que nos esclarece seu poema Tatuagem: “Afogado no vício de pensar estrela e escrever escuro”. Ao mesmo tempo, em Poemas para se ler ao meio dia (que dá título ao livro), mostra uma possível estratégia para seu impasse poético diante da turbulência dos novos tempos: “Pega a poeira das estrelas e guarda, / remenda, junta e forma outra estrela possível.” Um dos pontos mais curiosos do conjunto de poemas apresentado nesse volume é o quadro de referências explícitas que emergem na trama de seu texto: André Breton, Silvio Santos, Paul Éluard, Spielberg, Mário Quintana, Bob Dylan, Dante Milano além de um poema inteiro dedicado ao sorriso de William Bonner. O cinema e a televisão também têm seu lugar nessa dicção. O ritual amoroso no século XXI torna-se o “zapping afetivo”, o desencanto reveste-se de uma “very slow cólera” e tudo aponta para um melancólico fade out. Precavido, o poema registra em Coração: “É expressamente proibido o rompimento do lacre, / bem como a abertura do equipamento”. É o ethos geracional do poeta experimentando a guerrilha do “make it new” diante da linhagem poética de Augusto Guimaraens Cavalcanti.

Heloísa Buarque de Hollanda